quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O preço do Brasil

Desde que as distâncias se encurtaram no nosso planeta e a informação corre solta via internet que nós, brasileiros, sabemos e reclamamos do fato de nossos preços serem absurdamente mais altos do que no exterior. A princípio, atribuímos esse custo extra a fatores como transporte intercontinental e impostos de importação. Contudo, o tempo levou grande parte do setor fabril de todos os países para a China, indústrias dos mesmos produtos (como no exemplo dos carros) também foram criadas aqui, no Brasil, e ainda assim nossos preços são maiores.
Finalmente, chegamos ao argumento moderno (e falacioso, motivo pelo qual escrevo esse post), de que o motivo são os altos impostos brasileiros. Não sei se estão lembrados os mais antenados mas, em abril desse ano, incentivado por um jornal, o Felipe Neto até promoveu uma campanha falando mal do governo e colocando a culpa de tudo nos impostos. 

Para quem não viu:

Agora você está se perguntando por que ele está errado se foi tão convincente e os preços que citou são todos verdadeiros. Eu vou explicar porque.

Deem uma olhada no ranking de impostos desse link aqui (se concentrem no primeiro ranking, no qual estão presentes Suécia - 2º lugar e Noruega - 8º lugar):

Por último, vejam essa tabela de preços europeus para o iPad 2 na época do vídeo do Felipe Neto:

No mês de março de 2011, quando a tabela foi feita, a cotação do euro era de, aproximadamente, R$2,30. Para fazermos a comparação de preços toda em reais, seguindo o que fez o Felipe Neto, precisamos multiplicar os preços que interessarem na tabela por 2,30. Vou me concentrar em três países, vocês já devem imaginar quais.

Noruega
Carga tributária média: 41,00%
Preço do iPad 2 3G 64 GB: 2,3 x 926 = R$ 2.129,80
Preço do mesmo produto sem impostos (estimativa): R$ 1.510,50


                                 
 Suécia
Carga tributária média: 46,40%
Preço do iPad 2 3G 64 GB: 2,3 x 809 = R$ 1.860,70
Preço do mesmo produto sem impostos (estimativa): R$ 1.270,97

Brasil
Carga tributária média: 34,50%
Preço do iPad 2 3G 64 GB (retirado do vídeo) R$ 2.400,00
Preço do mesmo produto sem impostos (estimativa): R$ 1.784,39


Espero não estar confuso para ninguém. Se quiser conferir as contas, basta pegar, por exemplo, o valor estimado para o Brasil, R$ 1.784,39 e acrescentar 34,50%. 1,345*1.784,39 = R$ 2.400,00

Tive o cuidado de chamar todos os valores de estimativas porque essa é a carga tributária média do país. Isso não significa que todos os produtos possuam essa carga exatamente. Existem produtos que têm incentivos fiscais e existem outros (como cigarros e bebidas) que possuem seus impostos aumentados como forma de compensação. Se fizer o que fiz com um grande número de itens, no entanto, deve encontrar o mesmo tipo de resultado o que reduz a chance de ser uma mera coincidência o que encontramos. Pulando esse papo estatístico chato, vamos enfim analisar o que encontrei!

Perceba que, para os três países, girou em torno de 600 reais o valor dos impostos e, mesmo assim, existem discrepâncias grandes de preços. O iPad na Suécia é quinhentos e poucos reais mais barato do que o nosso SEM IMPOSTOS. E o iPad também não é produzido lá... Então, o que está acontecendo afinal com nossos preços?

O Brasil sofre, hoje, um grave "apagão logístico". Isso significa que, para o tamanho de nossa economia e a demanda por transporte de mercadorias que temos, simplesmente não possuímos meios suficientes e adequados de escoar produtos. No Brasil, pagamos muito mais caro pelo transporte de cargas do que se costuma pagar em outros países. Isso se deve, principalmente, ao fato de termos estruturado o transporte de um país com dimensões continentais baseado em rodovias.

Olhem os dois mapas do link abaixo e os rankings divulgados em cada um deles:

O Brasil é o 5º maior país em território e a 6ª economia global. Por que não aparecemos sequer no Top 10 dos países com maior malha ferroviária? O Japão, com o tamanho que tem, possui uma malha maior do que a nossa. Até mesmo nosso vizinho, a Argentina, tem o transporte ferroviário mais desenvolvido do que o nosso. Isso sem entrar no mérito do transporte hidroviário.

Existem mais uma dezena de dados que poderia mostrar para reafirmar o nosso apagão logístico. O grande ponto nisso tudo é: estamos perdendo competitividade e tirando o acesso de nossa população aos produtos graças, em boa parte, ao preço que pagamos pelo transporte dessas mercadorias dentro do território nacional!

Então está explicado a diferença de preço? Ainda não! Existem um terceiro fator chave que uma campanha agora está abordando de maneira brilhante no contexto da indústria automobilística. Deem uma olhada:

O fato, muito relevante e até agora pouco citado não é possuirmos altos impostos - os países mais desenvolvidos do mundo possuem impostos ainda maiores. Só precisamos, nesse campo, investir bem o dinheiro arrecadado em serviços para a população; Também não é o nosso apagão logístico - que faz o preço do transporte subir muito o que acaba sendo repassado para o preço final que pagamos pelos produtos; O fato é que as empresas aumentam sua margem de lucro quando vendem produtos no Brasil porque nós, otários, engolimos e pagamos!! O brasileiro é tão obcecado por status e por produtos criados no exterior que, quando esses itens chegam aqui, sejam jogos, carros, iPads ou o que for, aceitamos pagar mais caro que os outros para tê-los também.

É assim que nosso produto fica mais caro:
Preço pago em nações desenvolvidas (incluindo impostos) + custo extra de transporte ruim + lucro extra das empresas = Preço brasileiro




7 comentários:

  1. Filipe, ótimo exemplo! o iPad é um produto padrão, isto é, que não requer nenhuma adaptação significativa para ser vendido em outras regiões, mas mesmo assim apresenta uma variação brutal de preço ao redor do mundo.
    Suas conclusões estão perfeitas! 1) o brasil possui um enorme gargalo em relação a infraestrutura de transporte; e 2) o preços desses "bens de luxos" são caros no brasil pq para os brasileiros eles são uma questão de status.
    Mas acredito que o fator mais impactante no preço do iPad não seja a fata de uma rede ferroviária eficiente (embora ela causa algum impacto):
    O preço de importação de um produto como o iPad se dá mais ou menos por essa equação:
    FRETE + TRIBUTO + LUCRO = PREÇO

    O frete mais elevado é justificado pela maior distância em relação ao exportador (china) e nesse aspecto a influência da distribuição interna não pesa tanto.
    Os tributos também são maiores (só de ICMS e IPI são 30%). O iPad é considerado um bem de luxo e portanto seus impostos são maiores para proteger a industria nacional e não pesar tanto na balança comercial.
    A grande sacada está na parte do LUCRO. A legislação brasileira considera o iPad como um item de propriedade intelectual e dá a Aple o direito de vendedor exclusivo, portanto não é permitido que um terceiro importe o produto e o revenda com uma margem menor ou que um indivíduo o traga do exterior (supostamente). Na condição de monopólio, o vendedor pratica o preço que bem lhe convém.
    Um caso interessante é o da Kindle, que por ser um suporte a leitura entra no grupo de livros, jornais e revistas - que tem imunidade tributária - e por isso eram mais baratos. A partir do momento que esses aparelhos ganharam mais funções, eles perderam essa vantagem.

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  2. Pedro, obrigado novamente! Seus comentarios, sobretudo, ajudam a enriquecer o blog!
    Voce complementou com algo muito importante que e a questao do monopolio. Frequentemente com diversos produtos, nosso governo cede ao lobby alheio e concede monopolios com o mesmo tipo de manobra que citou no exemplo do iPad.
    Eu me concentrei nas ferrovias para evidenciar o problema do transporte brasileiro mas gracas aos nossos gargalos todas as modalidades aqui sao mais caras que o normal. Alem disso, a imprecisao do nosso planejamento por conta dos atrasos relativos a aeroportos superlotados, cogestionamentos, etc, causam a necessidade de revisitas aumentando o preco do frete. Quantas vezes compramos pela internet e o produto chega fora do horario quando nao ha ninguem e precisa retornar depois? Mazelas do nosso Brasil!

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  3. Exatamente! é bizarro mesmo. E na Copa e olimíadas? como vai ser? hahah será que as soluções que estão sendo trabalhadas agora vão dar conta pro Rio (BRS, BRT, reformas..)?
    E o caso da aviação civil? essas ai são outras pedreiras a serem discutidas!
    Se aprovadas pelo meu orientador esse ano, farão parte do meu projeto de monografia semestre que vem!

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  4. Filipe, excelente artigo.

    O Brasil precisa investir agora na melhoria da infra-estrutura, aproveitando que a Europa e Eua estão em crise e o Brasil está aumento seu grau de investimento e o governo está com bastante verba para gastar. Dessa forma, vamos fortalecer nosso mercado interno e facilitar as exportações.

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  5. Felipe, muito bem!

    O Brasil ficou extremamente caro, até os estrangeiros já me relataram isso. Minha cidade então, São Paulo, nem se fala. Um país tão grande sem um sistema de trem decente fica difícil ser competitivo no mundo globalizado. Se o Brasil não mudar esse sistema teremos um grande problema a longo prazo.

    Parabéns pelo blog! Vou te seguir também!

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  6. Muito obrigado! Espero que valha a pena seguir o blog! =)
    Se puder, divulgue também por aí! É difícil um blog como esse conquistar um bom público porque nem todo mundo está disposto a ler tantos dados e informações a respeito dos assuntos... É o tipo de blog que deveria ser do interesse de todos mas que realmente interessa a um pequeno nicho. Temos que atingi-lo no boca a boca! =)

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