domingo, 22 de abril de 2012

Alguns gastos públicos parecem inexplicáveis?

Bom, alguns devem realmente ser inexplicáveis. Mas o que eu vou explicar hoje está atrelado com um fato de facebook das últimas semanas. 

Contextualizando

Um sujeito postou o gráfico abaixo no facebook com o seguinte texto junto:

"A aprovação do Orçamento para 2012, pelo Congresso Nacional. A proposta prevê a destinação de R$ 1,014 trilhão para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública no ano que vem, o que representa 47,19% de todo o orçamento. Enquanto isso, serão destinados apenas 18,22% para a Previdência Social, 3,98% para a saúde, 3,18% para a Educação, e 0,25% para a Reforma Agrária." (Autor: sujeito)


Para quem não sabe, a dívida interna brasileira está em R$1,86 tri e a projeção para esse ano, 2012, é que cresça 11%. Um verdadeiro pacman que consumirá 170.000.000.000 (170 bi) em 1 ano. Todo mundo sabe que, se você não paga o juros de uma dívida, ela aumenta e no ano que vem os juros serão ainda maiores e mais difíceis de pagar, certo? Na verdade, esse foi um dos problemas que causou o rombo dos PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha - Spain). Na Grécia, por exemplo, é mais ou menos assim: Tudo que o país, sua população e suas empresas privadas produzem em um ano, se fosse destinado para o pagamento da dívida, não seria o suficiente. Legal né?

Explicando

Pois é, se esse ano nós quiséssemos pagar pelo menos o juros, para ficar no 0 x 0, e ter mais 170 bi pra pagar no ano que vem, já usaríamos uma fatia da pizza equivalente a 7,91% (um pouco menor que a de transferências a Estados e Municípios). Ainda assim, isso não passaria perto de cumprir os objetivos da Dilma.

Já ouviu a presidente falar que quer baixar o juros? O tempo todo, certo? Pois é. Acontece que, se você deve muito, a chance de você não pagar aumenta e, com isso, o juros também aumentam. Para conseguir baixar o juros, o passo número 1 é diminuir a dívida. Mas não adianta eu pagar 200 bi, ao invés de 170, todo ano que a dívida só vai diminuir expressivamente em algumas décadas, o que também não satisfaz os desejos do nosso governo. Portanto, faz sentido a gente gastar 1,014 trilhões (47,19%) em dívida agora.

Discutindo

"Mas a saúde, educação, entre outros não são mais importantes? Nossa presidente está cega atrás da redução de juros?!"

Então, talvez ela esteja sim um pouco obcecada por isso. Mas existem pelo menos duas maneiras de argumentar, uma contra, outra a favor, sendo as duas válidas tendo apenas essas informações em mãos.

A favor: Fazendo esse sacrifício esse ano, no ano que vem a dívida estará em 846 bi e provavelmente crescerá menos de 11%. Digamos 10% e o juros fica em 84,6 bi levando a dívida a 930,6 bi (metade da do ano anterior). Se quiséssemos quitar a dívida (nunca vai acontecer na vida real) gastaríamos 43,31% da pizza o que, mesmo sendo um exagero de gasto em dívida, já fariam sobrar 83,4 bi para serem investidos em outros tópicos já em 2013. Em 2014, por sua vez, já não existiria dívida resultando em uma sobra de 1,014 trilhões para investir no resto. Ou seja, em dois anos, aquela fatia enorme da pizza poderia ser integralmente distribuída em educação, saúde, previdência, reforma agrária... O que levaria o investimento nessas áreas para um patamar nunca visto e sequer possível antes.

Contra: Bom, em primeiro lugar, reduzir o juros e o endividamento significa dizer que aquele dinheirinho seu que está no fundo vai render bem menos. Com uma inflação crescente, pode ser até que você comece a perder poder de compra deixando o dinheiro lá guardado o que deixa a população sem nenhuma educação financeira do nosso país meio fula da vida. Em segundo lugar, quem quer crescer rápido precisa financiar seus projetos. Dívida é, muitas vezes, o motor do país e das empresas. Se você for muito radical com esse lance de dívida nós vamos começar a crescer bem mais devagar.

Essa foi uma discussão relativamente superficial, ok? Quem quiser, podemos falar mais por comentário. Quando você reduz a dívida, por exemplo, você afeta os juros que afetam os bancos e a população que afetam as empresas o que muda a maneira como a economia do país está funcionando. Minha idéia mesmo era só mostrar a idéia, que não é obvia, de que destinar 47% dos recursos para o pagamento da dívida esse ano pode ser uma ótima decisão para quem quer aumentar os investimentos em educação, saúde e nos outros tópicos levantados. Eu sou a favor de mais investimento em educação e, por isso mesmo, concordo com os 47% para a dívida nesse ano.



domingo, 25 de março de 2012

Vamos discriminar mais as pessoas! - parte final

Bom, depois de plantar a sementinha desse assunto no primeiro texto e preparar bem o terreno para ele na segunda parte, é hora de, sem mais mistérios, explicar tudo e deixá-lo com aquela sensação de quebra cabeças montado. Pelo menos, essa é/era a intenção!

O final


Relembrem a situação descrita na parte 2... Temos o homem com a vocação de ser caçador e a mulher com a vocação de cuidar das crianças mesmo que os dois, nesse primeiro momento, não tenham nenhuma grande diferença de habilidade. Como expliquei, é só uma questão de estratégia mesmo. Contudo, a sobrevivência nas caçadas se mostrou mais fácil com uma lista X de características enquanto a sobrevivência na caverna, cuidando de crianças, se tornou mais fácil com uma lista Y.

X - Os homens

1) Nos tornamos mais musculosos e, portanto, mais rápidos, mais fortes e mais capazes de voltar vivos de uma caçada e de sermos mais admirados pelas mulheres - mais sobrevivência e mais filhos = seleção natural

2) Ganhamos uma visão espacial superior o que aumentou nossas chances de interceptar um animal em movimento ou de acertar uma lança ou uma flecha atirada a distância - hoje faz a gente sacanear as mulheres dirigindo e nos faz ficar tão confiante que resolvemos andar a 200 km/h no engarrafamento e na beira de abismos causando mais acidentes do que elas (esse é o nosso jeitinho de aproveitar nossas vantagens)

3) Desenvolvemos uma engenhosidade maior, capaz de criar ferramentas para o dia a dia, casas que possibilitaram a saída das cavernas e o aumento dos grupos e armas melhores para a caça nos tornando capazes de matar animais muito maiores e mais fortes do que nós. Onde nasceu a engenharia.

4) Ganhamos um raciocínio lógico incrível, capaz de criar estratégias surpreendentes de caça e defesa do próprio território. Mais tarde fez de nós cientistas.

5) Nos tornamos capazes de separar quase completamente as emoções da lógica o que nos deu a capacidade de ignorar nossos medos durante guerras e caçadas e seguir rigorosamente os planos.

6) Os tarados também proliferaram mais e eram melhores para a sobrevivência e expansão da espécie. Portanto, ganhamos uma dose extra de libido o que, junto com a característica acima, fez a gente ter apetite sexual com fome, cansado, preocupado, com dor de cabeça, com a mulher que amamos, com a irmã dela, com a mãe, com a cabritinha, sozinhos...

Y - As mulheres

1) Se tornaram incríveis em multitarefa, dando a elas a capacidade de falar para o pedrinho não botar a mão no cocô, enquanto tira a luluzinha da boca do leão, enquanto amamenta um recém nascido, enquanto corta o alce morto para cozinhar, enquanto acende a fogueira... Fazendo com que seus filhos sobrevivessem com mais frequência já que ela podia administrar todos com uma certa eficiência.

2) Ganharam uma visão periférica excepcional, capaz de ver uma pequena sujeira no bebê ou de ver a aproximação de um inseto minúsculo, porém venenoso. Fez com que as mulheres garantissem um ambiente limpo e seguro em suas "casas". Hoje é o que faz os homens parecerem completos retardados ao procurar durante 30 minutos algo que elas acham em 10 segundos dentro de uma gaveta.

3) Se tornaram especialistas em comunicação, principalmente a não verbal. Bebês não falam e boas mãe precisam saber quando ele está com fome, sede, doente, etc... As mãe com maior capacidade de perceber mensagens que nunca foram ditas tinham mais chances de manter o seu bebê vivo e saudável o que proliferou essa característica. Hoje faz elas serem muito melhores com as palavras e perceberem muito melhor que os homens quando alguém está triste, mentindo, dando mole, etc.

4) Suas emoções e pensamentos se misturam o tempo inteiro. Isso faz elas surtarem as vezes, nós sabemos! Mas é um contraposto importantíssimo em relação ao homem. Essa característica fez da mulher a peça chave em criar ambientes harmônicos e fazer laços. Trouxe estabilidade e coesão para as famílias e talvez tenha sido o fator responsável por criar famílias.

5) Desenvolveram maior resistência a dor. Essencial para sobreviver a partos normais em quaisquer condições e para fazer depilação com cera quente.

6) Possuem um apetite sexual complexo. Tudo em prol da melhoria da espécie! Diferente dos homens, ter um bebê para elas é um grande investimento. Portanto, precisam sentir que aquele homem é um bom provedor de comida e segurança, que se importa e não vai abandoná-la e que possui características que façam de seu bebê o melhor possível - inteligência, vigor físico, etc.

Conclusão

Como já tinha dito, nada disso é absoluto. Logicamente, também nasceram mulheres com as características descritas como masculinas e homens com as características femininas e não tem nada de ruim ou errado nisso. Essa divisão apenas se mostrou a mais eficiente possível naquele contexto de pré história, quando o ser humano estava se moldando para ser o que é hoje.

Nosso mundo se tornou muito complexo. Homens não precisam mais caçar e mulheres não são obrigadas a criar filhos sozinhas. Todos trabalham e todos ajudam em casa, certíssimo para a nossa realidade de mundo! A idéia que quero passar é que, embora tenhamos assumido papéis mais próximos na sociedade, ainda somos, na essência, seres diferentes, como os que descrevi esse tempo todo.

Portanto, é muito importante pararmos de criar esteriótipos "rasos" e de vender idéias de que somos todos iguais a não ser pela cultura porque isso está totalmente errado. Observe as pessoas, conheça cada uma como se fosse um exemplar único vindo de marte, sobre o qual você nada sabe. Se todos fizermos isso, entenderemos as habilidades de cada um e nos organizaremos, cada família e cada grupo de trabalho, de acordo com essas aptidões. Todos têm habilidades e possuem grande valor quando estão trabalhando no seu terreno.

“Todos são gênios. Mas se você julgar um peixe pela habilidade de subir numa árvore, ele vai viver a vida inteira acreditando que é estúpido.”
(Albert Einstein)




domingo, 18 de março de 2012

Vamos discriminar mais as pessoas! - Parte 2

Para quem está chegando agora, no último post comecei a falar sobre as diferenças entre a natureza masculina e feminina do ser humano. Fiquei devendo dois posts de continuação e aqui está o segundo. Enjoy it!

Antes de continuar, vale um esclarecimento: nenhum homem é 100% masculino e nenhuma mulher é 100% feminina. Portanto, não me venham com aquele argumento: "Discordo de você, eu sou mulher (homem) e não faço isso!". Salvas as exceções, se você é uma mulher, provavelmente tem muito mais características femininas do que masculinas. Isso não é uma ciência exata, mas não é coincidência termos, consistentemente, ao longo da história, muito mais homens cientistas e muito mais mulheres pedagogas, professoras infantis, etc. Também não é a toa que a expectativa de vida masculina é menor que a feminina. Espero fazer com que todos entendam de maneira simples o porque disso tudo no final!

O meio



Lembra daquele papo Darwiniano? Pois é. O ser humano que conhecemos hoje é aquele que teve mais condições de sobreviver e se reproduzir na pré história, espalhando mais os seus genes e se tornando "a referência" em ser humano. Para que chegar até aqui e evoluir fosse possível, alguns instintos diferenciados foram fundamentais para os homens e mulheres.

As mulheres só podem reproduzir com um macho por vez. Uma vez grávida, ela vai ficar pelo menos 9 meses em gestação e mais um bom tempo se dedicando ao bebê que vai depender de ser amamentado (na época, uma questão de sobrevivência já que alimento era escasso e o leite provia os primeiros anticorpos que permitiriam que a criança se tornasse mais resistente a doenças). Os homens, por sua vez, podem "fecundar" fêmeas várias vezes em um só dia e, para gerar uma nova criança, não vão precisar de mais esforço do que aqueles 10 minutos que a gente já conhece.

Reflita bem sobre esse contexto porque é da onde sai a explicação para o que somos hoje e para as nossas diferenças. Uma mulher grávida ou amamentando é a pior pessoa possível para caçar. Primeiro porque ela está mais debilitada já que seu corpo alimenta duas pessoas e passou por muitas transformações recentes. Segundo porque, se ela morrer, a criança dentro dela morre ou o pequeno bebê ficará sem o leite materno, expondo muito mais sua saúde já que ele não é capaz de mastigar nada e não existe papinha da nestlê, muito menos uma que já venha com ante corpos. Terceiro porque as mulheres são o gargalo da reprodução. Se você tiver 10 mulheres e 100 homens, consegue produzir 10 bebês a cada 9 meses. Já se você tiver 100 mulheres e 10 homens, consegue produzir 100 crianças no mesmo período. Portanto, mulheres arriscando suas vidas é algo que ninguém quer e nem faz sentido mesmo na pré história.

Por outro lado, o homem "não está fazendo nada mesmo" e pode morrer que rapidamente outro o substitui como provedor de alimentos para as mulheres e crianças. E, novamente, se você tem um grupo de 10 mulheres e 10 homens e perde um homem, o impacto para a sobrevivência do grupo não é significativo.

Considerando tudo que foi dito, é obvio que quem vai caçar é o homem e que a mulher vai ficar na caverna, em segurança, garantindo a sobrevivência das crianças. Aqui é onde as nossas diferenças começam.


Vou guardar para o próximo texto todas as mutações que se provaram benéficas para reforçar esse modelo durante milhões de anos até ficar tão eficiente a ponto de permitir que esse grupo de 20 pessoas numa caverna se tornasse um grupo de 500 numa aldeia, um de 10 mil numa pequena cidade, 1 milhão em metrópoles medievais até o que somos hoje. A sobrevivência passou a ser tão fácil e garantida que pudemos nos dedicar a outras coisas como a ciência que permitiu que eu fizesse um blog e vocês lessem sem nunca terem me visto na vida. =)




domingo, 11 de março de 2012

Vamos discriminar mais as pessoas!

Resolvi escrever sobre esse assunto há alguns dias quando voltei a refletir sobre essa ideia, tão divulgada atualmente, de que somos todos iguais - homens e mulheres. Isso obviamente não é verdade!! Reflita por um momento, observe pessoas de sexos opostos fazendo tarefas comuns e você vai perceber que essa ideia é, na verdade, bem fraquinha... Mas se você não quer se dar esse trabalho de "pesquisa" e ainda é um pouco cético, daqueles que acredita que é tudo uma questão cultural, prometo que vou te surpreender com uma sequência de posts sobre esse assunto!

Antes de começar, queria evitar problemas explicando que o título é uma piadinha com o significado da palavra discriminar. Embora tenhamos fortalecido esse significado de "preconceito" e "injustiça", ela também significa "estabelecer diferenças" - fundamentadas mesmo, como eu pretendo fazer.

O começo


Nos dois primeiros meses de gestação, somos todos iguais. Depois disso, as diferenças só aumentam. Com o tempo de gravidez (não vale a pena aprofundar), a galera do cromossomo XY (homens) começa a desenvolver-se de maneira muito diferente. Quando digo muito diferente, quero dizer que desenvolvemos não só genitais diferente como cérebros diferentes, ossos diferentes, sistemas imunológicos diferentes e órgãos diferentes que produzem hormônios totalmente diferentes a vida toda que vão "dirigir" as mudanças do nosso corpo e do nosso cérebro.


Quando nascemos, logo nos entregam brinquedos como carrinhos e bonecas e é aí que a cultura começa a nos modelar para sermos diferentes, certo? Errado! Em 2007, dois pesquisadores fizeram uma pesquisa muito interessante com 44 macacos: botaram todos numa sala grande cheia de brinquedos tipicamente masculinos e femininos e outros considerados neutros (como livros infantis com imagens). Conseguem imaginar o resultado? Os macacos machos passaram um tempo significativamente maior e se empolgaram mais com brinquedos "de menino" e o inverso aconteceu com as fêmeas. Livros não tiveram muita atenção de nenhum dos sexos... Que tal? Ainda acha que é cultural?

Acho importante notar que, embora muitas vezes a cultura dite as regras para nós seguirmos, um dia essa mesma cultura foi construída por hábitos e experiências nossas! Alguns dos tratamentos diferenciados que damos a homens e mulheres não nasceram na sociedade e sim na nossa natureza. Eramos diferentes em primeiro lugar e aprendemos isso com o tempo. De geração em geração, temos apenas usado dessa experiência acumulada para saber que presente dar a uma menina e como tratá-la considerando que é uma menina! Tentar mudar isso, dando bonecas a garotos, por exemplo, pode ser o mesmo que dar um livro para o seu cachorro esperando que ele vá ler. Isso não faz parte da nossa cultura porque, nesse ponto, a cultura é a experiência acumulada pelas gerações. Percebemos há séculos que cachorros não se interessam por livros e não são capazes de ler e interpretar.

Gostou do que disse? Não? Tem algo a acrescentar? Comentem e salvem os próximos posts sobre o assunto que falarão do "meio" e do "final" das nossas diferenças.




sábado, 28 de janeiro de 2012

Por que o mundo parece estar caminhando para o caos?

Bom gente, como prometi no final do último post, vou continuar o assunto "violência no mundo" só que dessa vez explicando porque, afinal, achamos o mundo tão mais violento hoje se ele está mais calmo.
(clique aqui para ver o último post: "O mundo nunca esteve tão calmo")

Existem várias possíveis razões, todas tiradas da minha cabeça, com as minhas palavras, e sem comprovação nenhuma. Então, por favor, critiquem se achar que disse besteira. Você tem grandes chances de estar certo! Sem mais delongas, vamos ao que interessa:

O crescimento do jornalismo

A chegada dos meios eletrônicos, o surgimento da "liberdade de imprensa", vários outros fatores e, por último, o surgimento da internet possibilitaram o que vemos hoje nos grandes portais de notícias e no twitter: todos os fatos que acontecem em todos os lugares relatados em tempo real tanto pelas empresas quanto pelas próprias pessoas. Antes da internet isso era impossível e antes dos jornais terem recursos eletrônicos em geral a situação era ainda mais precária.

Pense bem sobre esses dois quadros. Até umas três décadas atrás você só ia ficar sabendo de um assalto em um ônibus se algum conhecido estivesse presente ou fosse a vítima e contasse para você (o que nem todos fazem). A mesma coisa é válida para aviões caindo, sequestros, assassinatos, etc. Embora alguns desses eventos fossem noticiados os jornais não tinham espaço, nem tempo, nem capacidade de receber, editar e publicar TODOS os eventos como nós vemos hoje. Além disso o boca a boca agora é no mural do facebook. Você não conta para um amigo, você conta para 300 ou mais.

Densidade demográfica

Bom, o tempo todo no post sobre violência usei um indicador muito comum que é o número de homicídios para cada 100 mil habitantes. O problema é que 100 mil, hoje, é a população aproximada da rocinha. No período mais violento, o tempo dos caçadores - coletores, esse mesmo número de habitantes precisaria de um espaço mais de 100 vezes maior para encontrar comida e caça suficientes para a sobrevivência.

Para vocês terem noção do que estamos falando, improvisei um mapinha com a ajuda do google maps e do paint. Nas duas imagens a área destacada em vermelho é a rocinha, onde 100 mil habitantes moram nos dias de hoje.

A esquerda, a Rocinha está "em close". Na segunda imagem, onde a rocinha é apenas um ponto, toda a região aparente (incluindo Petrópolis, Andrade Pinto, Barra do Piraí, etc) é a área que essa mesma população ocuparia há 10.000 anos atrás.


De quantos eventos você acha que os caçadores - coletores eram capazes de saber ou de ver? Mesmo hoje, com a internet e tudo o mais, você sabe as notícias referentes a São João de Meriti, Nova Iguaçu, Petrópolis, etc? Todas as pessoas que viviam se matando espalhadas nesse território, se fossem concentradas na Rocinha, iam ver ruas cheias de sangue e pessoas se matando todos os dias. Logo, teriam uma noção muito diferente do quão perigoso era o mundo delas, não acham?

Ao longo desses 10.000 anos o homem nunca se dispersou. Ele se concentrou constantemente até chegar aos arranha-céus das últimas décadas. Numa escala menor, certamente esse efeito faz diferença na visão de quem nasceu antes dos anos 80. A concentração era menor, via-se menos coisas.

Juntando os pedaços

Pare e reflita agora sobre tudo de uma vez só.

Há 30 anos

- Você via poucas coisas acontecendo porque estava rodeado por pouca gente.;
- Você só conversava com amigos e familiares - raramente com apenas conhecidos ou até desconhecidos;
- As pessoas próximas a você tinham menos "eventos" para contar porque viam e ficavam sabendo de menos coisas (assim como você);
- Os jornais noticiavam o que julgavam ser importante mas não te mostravam nem 1% de tudo que acontecia;

Hoje

- Você cruza com muito mais pessoas no seu dia a dia porque as cidades estão bem mais cheias - consequentemente você vê mais coisas acontecendo;
- Você publica em tempo real no Facebook o ocorrido com você ou perto de você para mais de 300 pessoas verem - incluindo pessoas que você só conhece de vista (isso se ninguém compartilhar);
- Você vê 300 pessoas ou mais fazendo a mesma coisa - muitos acontecimentos aparecem no mural;
- Daqui há 5 minutos o fato é noticiado no rádio e aparece em mais de 10 portais de notícias para o mundo inteiro - Você lê nos portais tudo que você viu e tudo que você não viu.

Bom, na minha opinião, esses são motivos suficientes para explicar porque achamos o mundo mais violento, mesmo que ele não esteja. Na verdade, só estamos aprendendo a lidar com a realidade como um todo enquanto só estávamos habituados a olhar para 1% dela. Nesse primeiro momento, isso assusta. Mas se formos conscientes dos fatores que expliquei aqui, acredito que poderemos aprender a conviver com isso mais tranquilos.




quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O mundo nunca esteve tão calmo

Depois de mostrar que o Rio de Janeiro não é uma cidade violenta para os padrões brasileiros (para quem ainda não viu http://nemcaranemcoroa.blogspot.com/2011/12/violencia-no-rio-tem-certeza.html), resolvi ir um pouco mais a fundo no assunto violência e mostrar para você que o mundo nunca esteve tão calmo.

Para me ajudar nessa tarefa, vou pedir ajuda a um renomado palestrante e pesquisador que concedeu uma palestra interessantíssima sobre esse assunto para o TED. O vídeo tem 19 minutos. Só para dar um gostinho das revelações que ele faz nesse vídeo, vou citar três de suas frases comparando os tempos de hoje com diversas épocas diferentes da história da humanidade.

"Se a taxa de mortalidade das guerras tribais valesse para o século XX, teria 2 bilhões de mortes em vez de 100 milhões" - Note que as 100 milhões de mortes do século XX incluem todas as guerras mundiais, guerras civis, conflitos no oriente médio, etc.

"O tipo de infração que hoje em dia lhe causaria uma multa naqueles tempos (idade média) poderiam resultar em ter a língua cortada, orelhas arrancadas, ser cegado, ter uma mão amputada e por ai vai." - Na idade média penas de morte eram aplicadas para quase qualquer tipo de infração. Roubar pão ou falar mal do rei que hoje geram no máximo uma cara feia ou uma confusão na delegacia na época eram causa de tortura seguida de assasinato.

"De acordo com ONGs que fazem essas estatísticas (de homicídios) desde 1945 (...) houve um acentuado declínio de guerras entre estados, revoltas étnicas ou religiosas, golpes de estado, etc." - E o pico de violência do século XX (de 1901 até 2000) foi nos anos 60 (você provavelmente conhece pessoas que viveram nessa época e falam que o mundo hoje é muito violento, não é?)

Para quem não se garante no inglês (tipo eu mesmo), vou deixar o link do vídeo original onde é possível incluir legendas:
http://www.ted.com/talks/steven_pinker_on_the_myth_of_violence.html





Complemento

Fonte: Super Interessante Jan/2012



Agora que você viu o vídeo, vou apenas fazer duas considerações que julgo importantes já que o vídeo foi feito com foco principalmente na Europa:

1) Os principais motivos mostrados por Steven para a redução da violência na Europa também se aplicam, talvez apenas de forma mais tardia, ao resto do mundo.

2) Desde 2006/2007 a taxa de homicídios para cada 100 mil habitantes do Brasil caiu de 25,8 para 19 - número que faz do nosso país um lugar relativamente violento para o nosso grau de desenvolvimento econômico. Agora compare esse número com o relativo a sociedade de caçadores - coletores (modo de vida de todo ser humano antes da invenção da agricultura - aproximadamente 10 mil anos atrás).






Como sempre, comentem, critiquem, divulguem e deem idéias para novos posts! O blog e eu, pessoalmente, dependemos da sua participação para melhorar em todos os sentidos.

PS: O próximo post será uma continuação desse assunto. Explicarei prováveis razões pelas quais achamos esse tempo todo que o mundo estava cada vez mais violento enquanto a verdade - até então oculta - dizia o extremo oposto.




domingo, 8 de janeiro de 2012

A meia entrada deveria SIM acabar

Para a galera que está acompanhando o blog fielmente peço desculpas pelo "período de estiagem" mas achei que seria oportuno parar de postar nas semanas que todos também param de ler.

Esse post veio para tranquilizar os estudantes e, se possível, fazer com que eles próprios defendam o fim da meia entrada. Tenho observado muitas pessoas que atualmente pagam meia "desesperadas" com essa ideia e, então, resolvi vir aqui explicar porque todos devem se acalmar e até apoiar a iniciativa!

Bom, como ninguém é obrigado a ser bom em matemática, vou falar o tempo inteiro baseado em um exemplo: um teatro com capacidade para 300 pessoas. Vamos entender o que acontece:




Como funciona hoje

A verdade é que a grande maioria das pessoas pagam meia no Brasil ou porque tem direito ou porque "consegue" o direito - se é que vocês me entendem. Os promotores de qualquer evento, no nosso caso, de uma peça, sabem muito bem disso e se planejam para receber uma quantidade característica de pagantes de meia entrada. Como eles fazem:

Suponhamos que saibam, historicamente, que 80% do público entra pagando meia.

Quanto da isso no nosso teatro: 80% de 300 = 0,8*300 = 240

Portanto, espero receber 240 pagantes de meia e 60 pagantes de inteira caso lote a casa. Bom, como promotor do evento, quanto eu quero ganhar para pagar meus custos e sair com um lucro legal? Vamos supor que eu queira R$ 9.000,00 em uma peça.

Agora vamos as contas que eles fazem:

O preço inteiro é p, 60 pessoas pagam inteira, então de inteira vou receber 60*p
A meia é, logicamente, p/2 e 240 pessoas pagam meia, então daqui receberei 240*(p/2) = 120*p (240 pessoas pagando meia são iguais a 120 pagando inteira, perfeito?)

Então tudo que eu vou arrecadar nesse dia será 60*p + 120*p e isso deve ser igual a 9000 que é quanto eu quero ganhar.

Então... 180*p = 9000 -> p = 50.

Se você não está nem ai para a matemática e confia no que eu fiz entenda apenas que, considerando que 80% das pessoas pagarão meia o preço da inteira foi calculado em 50 reais (e a meia em 25) para que se possa arrecadar R$9.000,00 num dia de casa lotada.




Como seria sem meia

Agora vejamos como seria essa mesma realidade (quero arrecadar R$9.000,00 de 300 pessoas) se não existisse meia.

Dessa vez a matemática é bem simples:

Tenho um preço p que vale para as 300 pessoas. Então estou arrecadando 300*p que quero que sejam iguais a 9000.

300*p = 9000 -> p = 30.

Conclusões

1)Numa situação como essas, você que paga meia está economizando 5 reais em relação a situação em que a meia não existe e, por causa de você, quem não paga meia está gastando 20 reais a mais. Você acha isso justo/certo? Você está tendo, na realidade, um desconto de 16,67% e quem paga inteira está pagando 66,67% a mais

2)Estamos falando de teatro mas todos sabemos que isso acontece em quase qualquer lugar que vende ingressos. Faz sentido estudante ter direito a meia entrada em jogos de futebol? Aquilo acrescenta cultura, leva ao estudante algo de fundamental para sua formação (considerando que é transmitido gratuitamente pela TV)?

3) Na maioria dos casos, quem paga meia não paga com o próprio dinheiro e sim o dos país, certo? Se a meia não existisse e você fosse a esse teatro com o seu pai ele pagaria 60 reais pelos 2 ingressos (2*30). Com meia, ele paga 75 (50+25), 25% a mais.

Vamos deixar de ser "malandros" e começar a criar uma inteligência coletiva, que tal? O fim da meia torna programas em família mais baratos, aumenta muito pouco o preço para quem paga meia atualmente e reduz drasticamente o preço para quem paga inteira. Seus pais também tem direito de aproveitar as coisas a um preço razoável!

Afinal de contas, quanto mais pagantes de meia comparecem, mais o preço da inteira sobe o que estimula ainda mais os pagantes de meia já que ninguém que paga inteira tem coragem de comprar um ingresso. No final você tem o teatro ou o cinema, ou seja lá o que for lotado de pagantes de meia. Preciso explicar que o preço seria o mesmo se a meia não existisse?

Comentem as opiniões de vocês sobre esse post e sobre o blog, é importante para mim!