Contextualizando
Um sujeito postou o gráfico abaixo no facebook com o seguinte texto junto:
"A aprovação do Orçamento para 2012, pelo Congresso Nacional. A proposta prevê a destinação de R$ 1,014 trilhão para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública no ano que vem, o que representa 47,19% de todo o orçamento. Enquanto isso, serão destinados apenas 18,22% para a Previdência Social, 3,98% para a saúde, 3,18% para a Educação, e 0,25% para a Reforma Agrária." (Autor: sujeito)
Para quem não sabe, a dívida interna brasileira está em R$1,86 tri e a projeção para esse ano, 2012, é que cresça 11%. Um verdadeiro pacman que consumirá 170.000.000.000 (170 bi) em 1 ano. Todo mundo sabe que, se você não paga o juros de uma dívida, ela aumenta e no ano que vem os juros serão ainda maiores e mais difíceis de pagar, certo? Na verdade, esse foi um dos problemas que causou o rombo dos PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha - Spain). Na Grécia, por exemplo, é mais ou menos assim: Tudo que o país, sua população e suas empresas privadas produzem em um ano, se fosse destinado para o pagamento da dívida, não seria o suficiente. Legal né?
Explicando
Pois é, se esse ano nós quiséssemos pagar pelo menos o juros, para ficar no 0 x 0, e ter mais 170 bi pra pagar no ano que vem, já usaríamos uma fatia da pizza equivalente a 7,91% (um pouco menor que a de transferências a Estados e Municípios). Ainda assim, isso não passaria perto de cumprir os objetivos da Dilma.
Já ouviu a presidente falar que quer baixar o juros? O tempo todo, certo? Pois é. Acontece que, se você deve muito, a chance de você não pagar aumenta e, com isso, o juros também aumentam. Para conseguir baixar o juros, o passo número 1 é diminuir a dívida. Mas não adianta eu pagar 200 bi, ao invés de 170, todo ano que a dívida só vai diminuir expressivamente em algumas décadas, o que também não satisfaz os desejos do nosso governo. Portanto, faz sentido a gente gastar 1,014 trilhões (47,19%) em dívida agora.
Discutindo
"Mas a saúde, educação, entre outros não são mais importantes? Nossa presidente está cega atrás da redução de juros?!"
Então, talvez ela esteja sim um pouco obcecada por isso. Mas existem pelo menos duas maneiras de argumentar, uma contra, outra a favor, sendo as duas válidas tendo apenas essas informações em mãos.
A favor: Fazendo esse sacrifício esse ano, no ano que vem a dívida estará em 846 bi e provavelmente crescerá menos de 11%. Digamos 10% e o juros fica em 84,6 bi levando a dívida a 930,6 bi (metade da do ano anterior). Se quiséssemos quitar a dívida (nunca vai acontecer na vida real) gastaríamos 43,31% da pizza o que, mesmo sendo um exagero de gasto em dívida, já fariam sobrar 83,4 bi para serem investidos em outros tópicos já em 2013. Em 2014, por sua vez, já não existiria dívida resultando em uma sobra de 1,014 trilhões para investir no resto. Ou seja, em dois anos, aquela fatia enorme da pizza poderia ser integralmente distribuída em educação, saúde, previdência, reforma agrária... O que levaria o investimento nessas áreas para um patamar nunca visto e sequer possível antes.
Contra: Bom, em primeiro lugar, reduzir o juros e o endividamento significa dizer que aquele dinheirinho seu que está no fundo vai render bem menos. Com uma inflação crescente, pode ser até que você comece a perder poder de compra deixando o dinheiro lá guardado o que deixa a população sem nenhuma educação financeira do nosso país meio fula da vida. Em segundo lugar, quem quer crescer rápido precisa financiar seus projetos. Dívida é, muitas vezes, o motor do país e das empresas. Se você for muito radical com esse lance de dívida nós vamos começar a crescer bem mais devagar.
Essa foi uma discussão relativamente superficial, ok? Quem quiser, podemos falar mais por comentário. Quando você reduz a dívida, por exemplo, você afeta os juros que afetam os bancos e a população que afetam as empresas o que muda a maneira como a economia do país está funcionando. Minha idéia mesmo era só mostrar a idéia, que não é obvia, de que destinar 47% dos recursos para o pagamento da dívida esse ano pode ser uma ótima decisão para quem quer aumentar os investimentos em educação, saúde e nos outros tópicos levantados. Eu sou a favor de mais investimento em educação e, por isso mesmo, concordo com os 47% para a dívida nesse ano.
