terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Violência no Rio? Tem certeza?!

O Rio de Janeiro, ao contrário do que você ouviu até hoje, não é mais violento do que qualquer grande cidade  brasileira. Consegui duas tabelas muito interessantes sobre o assunto que praticamente motivaram esse post. Elas trazem dados de homicídios de vários países e grandes cidades brasileiras. Vale lembrar que um lugar com muitos homicídios não é, necessariamente, um lugar mais violento do que outro com um número de assassinatos um pouco menor. Contudo, dados de assaltos não costumam ser divulgados e, pelo menos eu, não encontrei nenhum indicador melhor para violência do que esse. Embora a relação não seja necessariamente verdadeira em todos os casos, a gente sabe que na maioria das vezes as duas coisas andam juntas. Portanto, é razoável dizer que a taxa de homicídios representa a violência de um lugar, certo?

A primeira tabela é grande e está mal organizada. Para facilitar a vida de todos, refiz a tabela trazendo apenas o que é importante. Espero que confiem no meu "trabalho". Lá vai:

Fonte: Whosis e Census

Vale lembrar que a tabela não incluía o mundo inteiro. Na verdade, alguns países bem relevantes simplesmente não estavam nela (ex: China, Índia, etc.). Mas para o nosso propósito é suficiente, afinal, o foco é o Rio de Janeiro (já vou chegar lá, tenha fé!). O índice que vocês estão vendo é o número médio de homicídios por ano a cada 100.000 habitantes e os dados são praticamente todos de 2006. No Brasil, se aproximarmos a população do ano da tabela para 180 milhões, o cálculo do número total de homicídios fica assim: 180.000.000 x (25,8/100.000) = 1.800 x 25,8 = 46.440.


Não podemos esquecer que temos dimensões continentais e uma população bem grande perto da maioria dos países que estão aí. Isso naturalmente aumenta o índice. Em uma analogia um pouco tosca, é como comparar um salva vidas evitando problemas na piscina do seu prédio com 10 salva vidas tentando monitorar um parque aquático. Evidentemente, haverá mais problemas no parque, mesmo tendo um número maior de salva vidas.

De qualquer maneira, essa desculpa já não vale para os EUA, Rússia e até nossos vizinhos argentinos. Então, precisamos sim melhorar e estamos mesmo longe de sermos referência em segurança.

Agora, será que, tendo em vista a realidade brasileira, o Rio de Janeiro é uma cidade violenta, como quase todos os jornais e revistas importantes gostam de espalhar para os quatro cantos do planeta? A próxima tabela mostra a mesma taxa que você já viu acima só que para as 27 capitais de estados brasileiros.

Em 1997, a fama carioca podia até ter algum fundamento. Contudo, vamos nos concentrar no "presente". A primeira vez que olhei essa tabela foi um pouco impactante. Como pode atribuirmos tanta fama a cidade que é apenas a 14ª no ranking das 27 capitais? Se eu fosse um jornal tentando manipular as pessoas a favor do ponto de vista que me interessa através do texto, diria que o Rio está mais perto de ser a capital mais segura do país do que de ser a mais violenta. E o pior é que essa afirmação seria mais verdadeira do que a imagem que sutilmente foi passada ao longo dos últimos anos.

Embora você provavelmente já esteja de queixo caído a essa altura (assim como eu fiquei), vou um pouco além para te convencer de uma vez por todas de que o Rio não tem nada de especial nesse sentido.

Para entender o que vou falar a seguir, a menos que você entenda alguma coisa de estatística, será necessária outra analogia (seja paciente, por favor. Vale a pena!). Pense numa prisão que só tem condenados a morte. Agora imagine que os guardas façam todo dia uma "brincadeira" com os detentos. Eles escolhem 10 detentos e colocam eles na parede, um do lado do outro. Em seguida, eles jogam cara ou coroa. Se der cara, o 1º detento morre, se der coroa, ele volta para sua cela intacto. Depois a mesma coisa é feita com o 2º e assim por diante até completar os 10 detentos do dia. Num dia "perfeito", das 10 jogadas de moeda, 5 dariam cara e outras 5 dariam coroa, certo? Isso significaria dizer que 5 detentos seriam liberados e outros 5 morreriam. 

Mas, intuitivamente, a gente sabe que isso raramente vai acontecer, não é? A moeda quase nunca vai dar 5 caras e 5 coroas em 10 tacadas. Cada dia teremos um número diferente e seria totalmente plausível que em alguns dias morressem 9 detentos e em outros dias não morresse ninguém, certo? Também poderíamos ter uma semana histórica na qual todos morreram, não é?

Pensando na historinha que acabei de contar, concorda que existe uma chance de todas as capitais dos 27 estados serem igualmente violentas? Considerando essa hipótese como verdadeira, a diferença entre Palmas (27º) e Maceió (1º) seria apenas a sorte e o azar, respectivamente, que deram no ano de 2007, certo? Mas como testar se isso é plausível? Bom, isso daria pelo menos um mês de aulas de estatística que eu não vou me arriscar a dar nesse post. Só vou pedir que confiem nas contas que eu vou fazer e no resultado que vou apresentar.

Warning: Parágrafo assustador para quem não é engenheiro, estatístico, economista aventureiro (é piada, não preconceito, ok?), etc. Se você não é nada disso, pule para o próximo!
Considerando a hipótese que descrevi, fiz alguns cálculos com os 27 valores de 2007 como 27 medidas de uma mesma amostra. A média amostral é de, aproximadamente, 41,2 e o desvio padrão é de 19,6. Como a distribuição de probabilidade desse tipo de evento não é conhecida usei a normal. Por último, construí um intervalo de confiança de 90% usando o valor de referência da tabela padronizada (1,64). Finalmente, cheguei aos valores de 9,0 e 73,4 para os limites inferior e superior, respectivamente, do intervalo. Apenas os 3 primeiros valores da amostra de 27 saem do intervalo. Isso representa 3/27 = 11,11% o que evidencia, a princípio, que a distribuição normal é adequada a amostra já que, para essa significância, esperaríamos 10% dos valores fora do intervalo.

Agora que você já tentou entender o parágrafo acima e ficou assustado, vou traduzir numa linguagem que todos entendem. A conclusão que pude tirar com as minhas contas foi que é aceitável que esses números da tabela sejam aleatórios, assim como seria se observássemos vários dias distintos naquele presídio hipotético que descrevi. No presídio, teríamos dias com 9 mortos, 7, 3, 1, 5, 10, 0, etc, enquanto nas nossas cidades temos valores diversos entre 97 e 13. Não estou dizendo que é de fato aleatório o número de homicídios nas nossas capitais. O que estou dizendo é que essa idéia é aceitável, evidenciando que não há prova nenhuma nos dados de que uma grande cidade brasileira seja realmente mais ou menos violenta do que a outra. E uma coisa que todos podem entender é que a média da taxa em questão para as 27 capitais é 41,2. Portanto, o Rio de Janeiro, com 35,7, está abaixo da média nacional para grandes cidades.

Espero que tenham entendido a mensagem e passem a ler, a partir de agora, as notícias sobre a violência carioca com bem mais cuidado.




5 comentários:

  1. Acho admirável a ideia do seu blog, mas um problema recorrente nos seus posts é querer simplificar demais assuntos complexos. Concordo plenamente que existe um exagero imenso por parte da mídia e do senso comum brasileiro com relação à violência no Rio, mas também não dá pra dizer que a situação do estado é boa. Como o futebol cansou de nos provar, não dá pra usar estatística de forma fria pra tentar analisar um tema que leva em conta muitos fatores qualitativos e não apenas quantitativos. Não dá pra dizer que os dados de violência são completamente aleatórios, se você olhar pelo ponto de vista sociológico, existe uma coerência nesses dados, com relação ao nível social, a educação e a oferta de empregos nas cidades analisadas. Que está muito melhor do que já foi? Sem dúvidas! Que o problema é muito maior em outras cidades? Com certeza! Mas não dá pra achar que é aceitável. Ainda existe um longo caminho pela frente, e cruzar os braços só porque já houve alguma melhora não é a melhor atitude.

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  2. Muito bom, cara, só faltou falar da nova projeção do Rio com as UPP´s e a queda radical de quase todos os índices de criminalidade (o único que aumentou foi de roubo de carga nas estradas). Se fala em redução de até 35% dos índices de homicídio, jogando o Rio entre as 10 capitais mais seguras do país proporcionalmente.

    http://jovempan.uol.com.br/noticias/brasil/2011/10/Indices-de-violencia-no-rio-tem-queda-expressiva.html

    http://urutau.proderj.rj.gov.br/isp_imagens/Uploads/SaiunaImprensa11_640.pdf

    http://blogdainseguranca.blogspot.com/2011/07/violencia-rio-tem-queda-nos-principais.html

    http://jornal.ofluminense.com.br/editorias/cidades/indices-de-violencia-no-estado-do-rio-registram-queda

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  3. Jefferson, obrigado pelo comentario! O que eu mais gosto nesse blog eh da conversa com os leitores que vem logo depois do post. Nessa conversa tenho uma chance de explicar melhor algumas coisas... Eu nao simplifico os assuntos, eu mostro o lado para o qual as midias nao olham. Pelo menos essa e a ideia.
    Alem disso, nao falei que e alearorio e que nenhum outro fator importa. Falei que a aleatoriedade e aceitavel tendo pose apenas dessas tabelas. Essa ideia foi posta para evidenciar que, como disse no comeco, dentro da realidade brasileira o Rio nao e mais violento que nenhuma outra grande cidade.
    Outra coisa que esta sendo confundida: O fato do rio nao ser diferente dw outras grandes capitais brasileiras nao diz que a cidade e tranquila e que nada deve ser feito. A violencia e um problema em toda a cidade e deve ser combatido da melhor maneira disponivel.
    O post foi feito para mostrar que o Brasil e violento, o Brasil precisa melhorar mas o Rio e uma cidade como outra qualquer. vejo muita gente que mora em outros estados brasileiros evitando vir para o Rio porque a cidade e muito perigosa. E isso que estou combatendo...

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  4. Entendo seu ponto de vista, e até acho que você tá certo. O problema é que, sem querer parecer arrogante, mas o Rio de Janeiro é o maior destino turístico do país, uma das cidades que mais recebe investimentos, que vai sediar alguns eventos bastante importantes nos próximos anos, por conta disso tudo, eu acho que o Rio tinha a obrigação de ser uma das capitais mais seguras! É claro, a violência é uma consequência comum de grandes cidades, mas como São Paulo que é maior que o Rio, e tem os mesmo problemas, consegue ter uma taxa de homicídios bem menor? Tudo bem, esses dados são de 2007, antes da mudança radical (ou nem tanto) na filosofia da política de segurança do Estado, pode ser que hoje os dados tenham melhorado, e nos próximos anos melhores mais ainda. Mas eu, sinceramente, não estou satisfeito.

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  5. Eu acho que o Rio está no caminho certo. Teríamos que ir muito a fundo para discutir porque o problema não foi resolvido antes mas um fato que não podemos evitar é que agora que a cidade está em destaque e está recebendo investimentos e parte desses recursos estão sendo bem aplicados em soluções que particularmente achei muito inteligentes. Resolver a violência no Rio é muito complicado por conta da estrutura do crime aqui e até da geografia da cidade que favorece os bandidos. As operações não transformaram a cidade num campo de guerra, foram pontuais, organizadas e levaram uma proposta muito legal. Teorias conspiratórias a parte eu acho que as UPPs são essenciais nessa fase de transição sejam elas parte das 8 maravilhas do mundo ou não.
    O que me aborrece mesmo é que o Rio é mantido em foco enquanto o que temos que resolver é a violência no Brasil. Por hora, faz sentido priorizar o Rio. Mas há muito tempo, muito antes de UPP, não faz sentido o Rio ter a fama que tinha. O problema não está no Rio, está no Brasil inteiro.
    A primeira tabela deixa isso bem evidente... A Argentina também tem um território grande, uma população razoavelmente grande, uma economia 10 vezes menor do que a nossa e tem uma taxa de homicídios absurdamente menor que a nossa. Nossa cidade mais segura é duas vezes mais violenta do que a média deles. Essa sim deve ser nossa motivação para fazer operações no país todo, especialmente no nordeste.

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